sexta-feira, 17 de julho de 2009

As coisas não são fáceis para as mulheres, definitivamente. É clichê, é batido, mas é verdade. A pura verdade. E a maternidade está entre a lista de coisas que fazem de nós as pessoas mais felizes, mais cansadas, mais estressadas, mais desesperadas, mais realizadas e mais sem saber no que vai dar desta vida.

O tal do relógio biológico para mim era só mais um rótulo que os americanos inventam em seus filmes. Aquelas atrizes histéricas falando em relógio biológico sinalizando, batendo cuco e o escambal a quatro para mim pareciam forçação de barra, simples assim. Até que o danado do meu bateu. Estrondosamente, deu suas mais de 30 badaladas. Nessa hora, ou melhor, mais tarde, dei conta do quanto ainda carregamos nossa programação primitiva de sobrevivência, a mesma maldita que nos faz achar muuuuuito mais gostoso um belo pedaço de picanha gordurento do que um filezinho de peixe sem gordura, sem colesterol e sem graça, e que ainda fica armazenado nos culotes e pneus diversos para a eventualidade de uma nova era glacial. O desejo de ser mãe vem com uma força e uma clareza que não há o que nos faça mudar de idéia ou deixe a menor sombra de dúvida. Daí então enfrentamos um pequeno percalço: o homem NÃO sente esse mesmo desejo.

Para eles tanto faz. Até querem ser pais, mas sempre acham que poderiam esperar um pouco mais. Sempre querem conquistar mais estabilidade, mais tranquilidade e mais viagens antes do filho. Lógico, para eles tudo é mais fácil! Charles Chaplin foi pai aos 70 anos. Mulheres sendo mães aos 60 aparecem em matérias na seção Ciência Maluca. A questão é que nada muda neles, não há nenhum gatilho que dispare a busca pela continuidade da espécie. Eles não se derretem em "ohm qui coisinha mai bunitchinha" quando passa um bebê fofo e alegre por eles no shopping. Ah, e como a gente encontra crianças nessa fase... para onde você olhar, lá estará uma criança fofíssima, lindíssima, deixando mais forte na cabeça a pergunta "será que vai chegar minha vez?".

Bem, devo ressaltar que desde o primeiro tic do relógio nossa vida vira uma sucessão de "serás". Será que vou conseguir engravidar? Será que o bebê vai ser saudável? Será que minha gravidez será tranquila? Será menino ou menina? Será parto normal ou cesárea?

Vencidas todas as etapas, gravidez, cuidados, enxoval, quarto montado, chega o bebê. Não vou nem falar que nunca mais se dorme, porque é de conhecimento geral. Você nunca mais tem uma noite de sono como antes, nunca. Mas em compensação mais nada na sua vida será como antes. A noção de tempo muda, os hormônios mudam, nossos objetivos de vida mudam. Somos simplesmente (e digo simplesmente sem qualquer conotação pejorativa, pelo contrário) a mãe que quer cuidar, proteger e lamber sua cria. Não existimos para mais nada. Escova progressiva? Manicure? Podóloga? Nem passa pela cabeça.

Tudo isso seria muito mais fácil de se enfrentar se ainda vivêssemos na era em que fomos programadas com esses instintos de perpetuação. Viria o desejo de procriação, o acasalamento, a gestação, o nascimento, a cria e depois a entrega para o mundo! Partiríamos para o próximo. Mas nós nos apaixonamos, nos ligamos eternamente. A cria nunca vai crescer, nunca vamos querer que ela se vá para longe. É meu bebê, para sempre meu bebê! Passamos a achar lindos arrotos, cocozinhos, xixizinhos, peidinhos! De nada valem MBA's, pós graduações, cursos e mais cursos. Fuck you corporate world! Agora sim, minha vida vale a pena! Tenho um bumbum lindo e todo cagado pra limpar!

Aqui então volto para a crueza que a vida traz para as mulheres. Nossos instintos são os mesmos, mas nossa vida não é a mais a mesma há muito tempo. Ganhamos um presente maravilhoso, assumimos um papel incomparável, mas depois de poucos meses temos que voltar a atuar nos outros que tínhamos antes. Somos esposas, profissionais, amigas, baladeiras, vaidosas. Amo meu filho, com uma força que não havia conhecido antes nesse mundo, mas também quero conseguir levar minha vida como a pessoa que era antes. Não quero ser SÓ mãe, quero ser TAMBÉM mãe! E tudo isso é difícil porque, por mais presente, braço direito, participativo que o pai seja, ainda tem uma coisa: ele não é mãe!

Mesmo tendo o privilégio de poder escolher me dedicar à criação do meu filho e não voltar ao mercado de trabalho em que atuava, tenho meus projetos profissionais, minha apostas a fazer. Só que a criaturinha de poucos meses aperta o botão ON HOLD de tudo com uma força que não tem como soltar fácil. E é assim mesmo. No primeiro resfriadinho é que se vê como tudo mais pode ficar mesmo on hold até que ele pare de espirrar. Nada mais terá tanta importância!

Mas vai-se dando um jeito... o negócio é aproveitar as horas livres e, ao invés de fazer um soninho extra, domar o sono para escrever um texto e acalentar o sonho de ser uma lasquinha de Carrie Bradshaw. Ainda que de olhos e ouvidos grudados na babá eletrônica, prontas para a próxima inalação seguida de mamadeira.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Um fora meu ou da vida?

Outro dia fiquei chocada quando soube o nível de escolaridade da minha empregada. Fui conversar com ela pois havia recebido um e-mail da minha irmã mais velha sobre um programa de educação gratuita oferecido pela escola dos meus sobrinhos. Achei que era uma excelente oportunidade para que ela conseguisse estudar e seguir adiante na vida com um diploma, afinal, nem eu gostaria que ela fosse empregada doméstica a vida toda e a escola é aqui pertinho de casa, dá para ir a pé depois do trabalho.

Quando perguntei até que ano ela havia estudado ela me respondeu "terceiro". Eu disse "ah, terceiro primário". E não, nao era. Ela fez até o terceiro colegial. Eu não sabia se ficava sem graça por causa do fora que havia dado, ou se ficava abismada pelo fato de ver que um diploma foi concedido sabe-se lá de que jeito. Se ela completou o colegial, isso deveria significar que ela está apta a prestar vestibular e entrar numa faculdade. Ela deveria ser capaz de responder questões de física, química, matemática, redigir um texto. Mas no dia-a-dia eu a ensino a falar "para eu fazer"; ensino que o período em que uma pessoa fica em observação por causa de uma doença é chamado de quarentena, e não quarentona; ensino a falar fralda, ao invés de flalda. Como pode ter recebido diploma nessas condições?

Minha sobrinha que está no nono ano da escola (minha antiga oitava série), está a anos luz de distância no conhecimento. E ainda tem mais 3 anos de estudos pela frente.

Como pode?